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Sociólogo italiano lança seu livro na FIC e comenta sobre influência das tecnologias

Wildson Messias

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Foto por Fernanda Almeida.

 

Democracias parlamentares estão obsoletas, afirma sociólogo

Massimo Di Felice lançou livro sobre redes conectadas e comenta influência das tecnologias sobre política e meio-ambiente

A Faculdade de Informação e Comunicação da Universidade Federal de Goiás (FIC/UFG) recebeu na última sexta (1º) a visita do sociólogo italiano Massimo Di Felice para o lançamento do livro “Net-ativismo: Da ação social para o ato conectivo”.

A publicação já foi lançada na Itália, e está sendo traduzida para o francês e espanhol. “O livro também deve ser lançado em Portugal”, comemora o escritor. A obra compõe o segundo volume de uma trilogia sobre tecnologias da comunicação, espaços e indivíduos. O chamado “net-ativismo” é um conceito muito empregado pelo sociólogo, e trata das diversas relações que acontecem nas redes entre indivíduos, e dispositivos eletrônicos.

Massimo Di Felice é sociólogo, formado pela Universidade La Sapienza, em Roma, foi docente-visitante em instituições europeias como a Universidade Lusófona, na Cidade do Porto, em Portugal, além da Universidade de Sorbonne, em Paris. O pesquisador conversou com o DIÁRIO DO ESTADO e comentou sobre a publicação, comunicação em redes, e a sua influência em decisões ambientais, políticas, e sobre o mundo do trabalho.

O senhor tem passado por alguns lugares apresentando o segundo volume do seu trabalho. Como tem sido a reação do público ao livro?

Eu recebi com muito prazer o convite do professor Tiago Franco (do curso de Relações Públicas) para fazer conhecer o livro e debater com os colegas. O trabalho já foi apresentado na Universidade Federal de Juiz de Fora, e na próxima semana, estarei em São Paulo e no Rio. Eu lancei antes na Itália, e lá as apresentações são sempre polêmicas. Já aqui no Brasil, me parece que as pessoas têm uma facilidade maior em concordar com os meus posicionamentos, ou então vocês disfarçam bem a discordância (risos).  É muito interessante observar como o público recebe algo novo, e sabercomo eles reagem e compreendem o meu trabalho.

Esse é o segundo volume de uma trilogia. Quais assuntos são abordados na obra com a totalidade de seus títulos?

O primeiro volume é uma análise sobre a forma comunicativa do habitat, isto é, o desafio de se criar uma linguagem capaz de abordar a dimensão de um espaço conectado, uma ecologia conectada, não apenas física, mas de informação. O espaço digitalizado é um espaço que interage, e que tem voz. Já no segundo, se fala da ação de comunicação nas redes não apenas entre pessoas, mas entre indivíduos e dispositivos digitais. Não existe mais o sujeito autor da informação e uma realidade externa. Hoje, por exemplo, 75% das informações em rede são oriundas de inteligência artificial, portanto esses agentes também estão envolvidos nos processos de comunicação nos espaços virtuais. Essas interações múltiplas são o que eu chamo no meu livro de “net-ativismo”.

Alguma informação sobre o terceiro?

É difícil falar de algo que ainda não foi lançado (risos).

O senhor pode conferir uma prévia aos nossos leitores.

Tudo bem (longa pausa). O terceiro livro, provavelmente vai pensar a ideia de comum, público ou visível, e o particular, específico, na comunicação. É tudo o que pode ser dito.

Como as interações que acontecem pelas redes sociais influenciam instituições e organismos a mudar posturas quanto ao meio ambiente?

Digamos que toda a ecologia contemporânea, e as próprias reuniões da ONU e conferências sobre o clima, são resultado do que eu chamo de infoecologia. Hoje não precisamos andar pela Amazônia para saber o nível de desflorestamento da vegetação. Existem satélites que nos mostram em tempo real o que acontece por lá. Hoje, a biosfera está conectada, e isso nos dá a possibilidade de medir em tempo real o impacto do nosso sistema econômico. Com isso, pode-se pensar políticas no intuito de intervir com sanções e pressão para que as empresas e governos pensem e repensem a sua responsabilidade social, inclusive em relação à forma que essas organizações se relacionam com o meio-ambiente.

Qual a influencia do acesso das pessoas às redes na formação de opiniões políticas?

Primeiramente, hoje fazemos tudo conectados, desde compras a reservas, e mesmo a nossa forma de participar da sociedade como cidadãos, tem sido conectada. Isso indica que a forma de se organizar a democracia indireta, de modo parlamentar, com eleições a cada 4 anos, e partidos, está obsoleta. As novas gerações não participam mais de partidos políticos, mas de movimentos mantidos na internet. Deixamos de nos tornar públicos, para sermos ativistas. Estamos passando da democracia parlamentar, para outra, com transparência e informação compartilhada por meio das redes.

O tom obsoleto dessa democracia com organizações políticas denota uma descrença do cidadão diante das instituições, na opinião do senhor?

Essa crise de confiança acontece porque o cidadão se enxerga como refém dos partidos políticos. As redes nos permitem descobrir escândalos que envolvem as autoridades, e são muitos os casos de corrupção, desvios de dinheiro e enriquecimentos ilícitos no Brasil e no mundo. Por todo momento vemos políticos sendo afastados de cargos, presos ou sendo alvo de denúncias, e por isso a desconfiança das pessoas sobre as autoridades é um fenômeno mundial. Assim, enxergamos a saturação das instituições políticas. Ainda não temos um novo formato de mecanismos políticos, mas isso deve surgir nos próximos anos.

Desde a popularização das redes sociais, a internet muitas vezes tem se adiantado na divulgação de informações, mesmo que pouco apuradas. O impacto dessa tecnologia pode repercutir no status profissional dos comunicadores?

Todo processo de transformação tecnológica torna obsoleto alguma atividade humana. No caso dos comunicadores, especialmente dos jornalistas (longa pausa), eu acredito que se continuarmos entendendo que os profissionais são aqueles que dão a informação, essa atividade não faz mais nenhum sentido. Isso porque a notícia chega primeiro à rede, com textos e fotos em perfis de pessoas comuns. É evidente que a qualidade de apuração e coesão nas informações não vai ser a mesma, mas o jornalismo pode sobreviver caso se especialize em assuntos. Cada vez mais esses comunicadores têm segmentado suas áreas, produzindo leituras específicas, que uma pessoa com vivências e conhecimentos rasos não conseguiria produzir. O caminho para a profissão é a segmentação de conteúdos.

 

Entrevista por Gustavo Motta.

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