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Prof. Gardene Leão fala sobre sua tese recentemente defendida

Wildson Messias

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             Foto: Prof. Dra. Gardene Leão

 

A Faculdade de Informação e Comunicação (FIC) celebra o título de Doutora da Professora Gardene Leão. Para conhecer sua tese, seus interesses em pesquisa e parabenizá-la foi realizada uma recente entrevista para que todos os estudantes e professores possam conhecer melhor o seu trabalho.

 

Entrevista

Apresentação do tema e proposta da Tese

O título da minha pesquisa é “Representações Sociais de Jovens de Goiânia: A Negociação de Sentidos em Relação aos Discursos Midiáticos a Respeito de si”.

Vou começar a falar sobre o porque eu trabalho com juventude. Tem mais ou menos 15 anos que eu pesquiso esse tema, como a juventude e a violência são representadas na mídia. Por que eu escolhi trabalhar esse tema?

Eu era assessora de comunicação de uma Organização Não Governamental (ONG) chamada Casa da Juventude, onde aconteciam várias denúncias de violência envolvendo jovens das regiões periféricas de Goiânia. Em 2006, foi montado o Comitê Goiano pelo Fim da Violência Policial e várias denúncias foram feitas, inclusive de policias, em relação ao extermínio de jovens.  Essa realidade me comoveu, ver essa famílias perdendo seus filhos, sendo executados de joelhos diante da própria mãe. Foram coisas que mexeram comigo, me envolvi com as causas da instituição. Por isso decidi fazer uma pós graduação em juventude, pesquisei como os jovens eram representados no jornal O Popular, na época, e como foi a cobertura da criação desse Comitê Goiano pelo Fim da Violência Policial.

Na época do lançamento do Comitê, percebi que não houve cobertura em relação à sua criação, a fonte principal das notícias era a polícia, as famílias não eram ouvidas e os jovens também não eram escutados. Comecei a me incomodar com essa realidade.

Depois dessa pesquisa eu fiz o mestrado, mudei o enfoque e passei a analisar o Jornal Daqui. Mas porque essa mudança?

O Jornal Daqui tem uma distribuição muito maior do que a do O Popular. Ele é teoricamente distribuído para as classes econômicas C,D e E, as que atendem justamente o público com o qual eu trabalhava na Casa da Juventude, os jovens das periferias. Eu queria saber como esse jovem era retratado para esse público, queria ver se tinha alguma mudança nesse discurso e novamente eu vi que o jovem era representado de maneira estigmatizada. O jovem das periferias não tem outra representação que não seja a violência. Ele não produz cultura, ele não estuda, ele não trabalha, ele só é violento, só é o autor da violência. É preciso lembrar que as principais pesquisas do Brasil demonstram que o jovem é autor de somente 10% dos crimes, sendo que, na maioria, ele é a principal vítima da violência. Só que na mídia ele é retratado como se ele fosse somente o autor desses crimes.

Então, no mestrado, eu analisei a cobertura do Jornal Daqui por esses motivos e no doutorado quis verificar como continuava essa cobertura.Eu comparei o ano de 2010 com 2014 e percebi uma mudança no discurso. Em 2010, esse jovem continuava sendo violento, perigoso, arruaceiro, baderneiro. Em 2014, aumentou o discurso antidrogas, o jovem é violento e perigoso porque ele é traficante ou usuário de drogas. Existia esse discurso em 2010, mas em 2014 ficou muito forte.

Houve um deslocamento de sentidos. O discurso antidrogas estigmatiza ainda mais o jovem como violento e perigoso porque há um preconceito maior por parte do jornalista e da sociedade com o usuário ou o traficante de drogas porque ele é irrecuperável, é bandido, é violento, é considerado insano, louco, dependente. Esse jovem ficou mais estereotipado ainda nesse discurso jornalístico, foi então que decidi falar com os jovens.

Em duas pesquisas eu analisei o emissor do discurso midiático. Fiz uma outra análise comparando o ano de 2010 com 2014, mas e o jovem, como é que ele recebe esse discurso?  Fui falar com jovens de classe média, classe alta e classe baixa de Goiânia para ver como é que eles recebiam esse discurso midiático. Há uma visão de que o jovem é alienado, a minha hipótese era que o jovem compraria esse discurso sobre si mesmo, mas, para a minha surpresa, eles têm uma visão muito crítica diante do discurso midiático proveniente de qualquer classe social. Na minha pesquisa falei com os jovens de três regiões de Goiânia, o Colégio Fractal, O Colégio Medicina e com jovens da região Noroeste, que é uma região periférica de Goiânia.

Esse jovem das regiões periféricas não têm acesso à escola, não estuda e nem trabalha, está fora do sistema, ele é o jovem pobre e excluído e possui uma noção muito crítica diante do conteúdo midiático. Ele diz que esse discurso parece uma piada e critica que a única fonte é a polícia, faz muita denúncia de violência policial e ele fala “Eu conheço esse cara, ele é meu amigo, é meu primo e não foi assim não. Eu sei que fulano fez isso e não foi ciclano, então não foi assim”. Eles pegaram o discurso midiático e desconstruíram. Foi interessante ver que realmente as fontes não são consultadas, esses jovens não têm voz no discurso jornalístico e nem suas famílias, nem suas comunidades e eles não são alienados como esse próprio discurso coloca. Eu queria que na minha pesquisa a voz desses jovens fosse ouvida. Eu percebo muitos não têm uma concepção do que é a juventude, da diversidade do que são as juventudes e o respeito às diferenças do que é ser jovem, de modo geral. Ouvir e ver esse essa realidade é muito bom, porque aprendemos muito mais do que achamos que estamos oferecendo com essa pesquisa.

O que é ser jovem para você?

Eu não tenho uma definição do que é ser jovem. Nós trabalhamos com o conceito de juventudes, que a diversidade do que é ser juventude,. Trabalhamos dentro dessa concepção e ser jovem é ter autonomia, é ser sujeito de direitos, é ter a possibilidade de construção da sua própria história. Ser jovem é ser cidadão.

 

Quais seriam essas juventudes?

São várias tribos, eu posso indicar o documentário “No Espelho – Faces das Juventudes Goianienses, de Emerson Pessoa, que participei da construção. Ele fala sobre as Juventudes e convidamos diversos jovens de diferentes tribos, o jovem que faz cosplay, o jovem que está na rua fazendo acrobacia, o jovem que está no colégio particular etc. São vários grupos juvenis. Temos que aceitar e reconhecer essa diversidade, sem querer rotular ou moldar a juventude. Eu acho que precisamos aprender muito do que são essas juventudes, nós educadores, para então respeitarmos essa diversidade e trazer para gente esse conhecimento, a pluralidade e trabalhar com isso dentro da sala de aula.

 

Como foi ver essa diferença social de perto?

Eu me surpreendi porque o jovem da periferia tem uma visão muito crítica da realidade. Elaborei o mesmo roteiro de perguntas e perguntei “O que você acha do Jornal Daqui?” Eles tiveram visões muito próximas do que é esse jornal, o sensacionalismo. O mais legal é que o jovem da periferia trazia coisas da sua realidade para poder exemplificar. A diferença é que o jovem de classe alta e classe média não têm a vivência da desigualdade na pele, ele projeta muito a violência no outro, a violência sempre está na favela, na periferia. Agora o jovem da periferia tem a vivência e muitas vezes sabe quem é envolvido no acontecimento, faz parte da realidade dele. Isso faz ter uma visão muito crítica da realidade, muito diferente do que pensamos, como se eles fossem alienados e desinformados.

 

Você gostaria de deixar mais algum comentário?

Eu só quero reforçar que os jovens têm uma visão muito crítica do conteúdo midiático sobre si mesmos, todas as três classes se posicionaram de forma bem crítica. A diferença é que os jovens de classe baixa trazem a realidade deles muito próxima e a diferença também é que o jovem de classe alta e média vê a violência sempre de outro lugar, no outro bairro. Mas, de uma maneira geral, ele também tem um posicionamento muito crítico.

Essa pesquisa me fez ver a violência de forma muito diferente. Eu, como comunicóloga, tive um grande diferencial em fazer um doutorado na sociologia. Eu entendo a violência hoje de uma forma muito diferente, principalmente com relação aos estereótipos relacionados aos bairros das periferias. A violência é lucrativa, tanto para as empresas imobiliárias, como para a mídia, que vende a notícia em formato de violência. Sou outra pesquisadora, pois eu fui a campo, eu fiz grupo focal, eu estudei outras teorias.

 

Para você, qual a sensação de conseguir alcançar o título de doutora?

Foi uma maturidade teórica muito grande, nós realmente temos que passar por essas etapas. Hoje eu sou outra pessoa como pesquisadora, acrescentou muito nesse sentido de crescimento intelectual e pessoal, de desafio, de realmente lutar, eu fiz o doutorado sem licença, foi um desafio muito grande, para mim realmente é uma sensação de vitória, de amadurecimento.

Acho que é o início, acredita? Depois de terminar, sinto que é simplesmente o início de toda uma trajetória. Quando eu vejo grandes pesquisadores, que já se aposentaram, vejo que tenho um caminho imenso e longo pela frente, o começo é agora.

Consigo me ver como uma melhor professora, melhor orientadora e espero trazer um grande sentimento de aprendizado e interdisciplinaridade em sala de aula. Como eu pesquiso gente, meus temas são voltados para relações humanas, espero tentar ser uma melhor professora.

Os alunos devem procurar produzir conteúdo acadêmico, como artigos, exposições, eventos e sempre procurar um professor que o possa orientar para essa produção que é muito importante para o meio acadêmico. Nós temos muito a ganhar com essas parceiras, entre professor e aluno e não podemos deixar para o fim da graduação.

Devemos aproveitar todas as oportunidades para nos envolver e produzir. A Universidade Federal de Goiás (UFG) é um sonho de oportunidades, temos pesquisa, extensão e temos o ensino, podemos trabalhar tudo isso aqui dentro, é um mar de opções para abraçarmos. Acho que temos que aproveitar, tenho esse sentimento desde a minha época de graduação. Quando eu entrei nessa universidade, eu falava “Gente, eu passei na UFG!”, para mim era um sonho. É diferente, só o fato de você ter a possibilidade de pesquisar e ser pesquisadora é um crescimento humano muito grande. Então, o meu conselho para os alunos é investir, não deixem passar a graduação. Aconselho os alunos interessados a procurem a coordenação de curso para se informar mais. Uma dica legal é dar uma olhadinha no Lattes dos professores que você tem afinidade para conhecer melhor a linha de pesquisa desse professor.

 

Qual a dedicatória que você deixa para esse trabalho que você fez?

A dedicatória deste trabalho foi para os jovens que são vítimas da violência no Brasil e para a minha filha.

São muitos jovens, então se eu puder contribuir um pouquinho abrindo o espaço que eles não têm na mídia dentro da minha pesquisa, eu já me sinto feliz.

 

A tese da professora Dra. Gardene Leão pode ser baixada aqui.

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